Pesquisa da Associação Nacional dos Executivos de Finanças, Administração e Contabilidade (Anefac) revelou que o elevado endividamento das famílias vai ampliar o uso do 13º salário, em 2013, para pagamento de dívidas, o que pode reduzir o potencial de consumo. O prognóstico é que parte significativa dos consumidores compre em menor quantidade e gaste menos. O levantamento, que ouviu 700 pessoas, mostra que 61% delas vão usar a remuneração extra para quitar débitos.
Outro dado a confirmar isso diz que 24% pretendem gastar mais de R$ 500,00 com presentes, marca que é quatro pontos percentuais inferior à de 2011. Já o número dos que querem gastar menos de R$ 500,00 subiu de 72% para 76%. Transparece que a redução da atividade econômica e a inflação mais elevada aumentaram o endividamento dos consumidores, gerando uma postura de maior cautela. O perigo desses indicadores está na redução do potencial de consumo no período natalino e, por consequência, da capacidade de impulso da economia no 1º trimestre de 2013.
Se o dado é preocupante, não pode ser motivo para desespero. O pagamento do 13º salário deverá injetar cerca de R$ 131 bilhões na economia brasileira até dezembro, segundo apontou levantamento do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese). O valor representa perto de 2,9% do Produto Interno Bruto (PIB) do país e será pago a 80 milhões de pessoas, entre trabalhadores do mercado formal, empregados domésticos, segurados da Previdência Social, aposentados e beneficiários de pensão da União e dos estados. É dinheiro que, inevitavelmente, irrigará o mercado.
Há circunstâncias culturais que precisam ser contempladas nesse contexto. Se a prudência tem implicações negativas no consumo, é positivo que as pessoas estejam querendo quitar dívidas. Isso pode indicar o início de uma necessária mudança no comportamento do brasileiro em relação ao dinheiro. O país ainda não conseguiu criar, até porque nunca deu foco nisso, uma cultura de poupança e de redução das dívidas pessoais. A ascensão de renda causou uma empolgação em direção às compras que, agora, torna periclitante o orçamento de muitas famílias. Logo, é salutar que priorizem um reequilíbrio.
São por esses motivos que o Brasil precisa disseminar uma prática de educação financeira individual e familiar. Veja-se que, em vez de economizar para depois comprar, boa parte das pessoas está comprando através da contração de dívidas. Se isso fosse feito com prudência e organização, como acontece em muitos casos, não haveria qualquer problema. Ocorre que, não raras vezes, o grau de endividamento alcança um patamar insustentável. A insolvência civil é a realidade objetiva de muitas residências.
O Brasil deve cuidar bem de seu mercado consumidor familiar. Isso não significa obstaculizar o acesso das pessoas aos bens de consumo, mas monitorar de perto o crescimento da dívida privada. É preciso criar consciência sobre a necessidade de poupança, inclusive com crianças e jovens em idade escolar, bem como de um endividamento equilibrado. Algumas nações da Europa, perto da bancarrota, agora começaram a incentivar ações nesse sentido. Não deixemos chegar tão longe. Já é tempo de nosso país preparar as próximas gerações para uma nova postura de responsabilidade financeira civil.
