O presidente Michel Temer se viu livre, na última semana, de responder a mais um processo que poderia culminar em sua cassação. Mesmo assim, diferente do que muitos estão alardeando, não se trata de impunidade. Depois de concluir o mandato presidencial, correrá normalmente a ação ajuizada pela Procuradoria-Geral da República. A decisão apenas suspende a denúncia, mas não a enterra. É preciso repor isso para que, a par de todo o desgaste da política e das instituições, a situação não pareça ainda pior do que já é.

Mesmo com a vitória, o governo não saiu ileso. A base parlamentar se mostrou novamente majoritária, mas o resultado foi inferior em relação à votação anterior. E, convenhamos, ficou evidente o alto preço político pago para garantir o referido apoio. Grande parte da opinião pública, embora não tenha ido às ruas, criticou essa prática. A intenção de colocar em votação projetos mais polêmicos parece, no mínimo, periclitar. E um dado à parte: as relações com o presidente da Câmara, Rodrigo Maia, que pareciam sempre muito azeitadas, não mostram mais a mesma sintonia.

De qualquer modo, o fato é que o sobrestamento da denúncia gera um colchão de estabilidade – mesmo que pequeno – para o governo. A julgar pelos últimos meses, nunca se sabe o que pode acontecer a qualquer momento no cenário político brasileiro. As denúncias se sobrepõem, cada vez com mais intensidade e alcance. Mas, num ambiente convencional, mesmo com muitos percalços projetados pela frente, fica mais provável que o presidente Temer encerre o mandato em 2018. Essa projeção está sendo feita por grande parte dos analistas políticos e econômicos.

A questão passa a ser, então, a seguinte: o que se pode fazer daqui até lá? Diante de um quadro político conturbado, de um governo enfraquecido, de uma oposição que maneja fortes ataques e do avizinhar da eleição, em que os interesses ficam mais pragmáticos, o que resta construir? Essa travessia provavelmente será o último grande teste de Michel Temer perante a história. Não que deixará de ser contestado, mas esse pouco tempo será ainda mais decisivo sobre os legados que o atual presidente pode escrever sobre sua passagem pelo poder.

Não vejo ambiente para que as reformas avancem, justamente pelos motivos expostos acima. Talvez, no máximo, consiga passar um ou outro ponto, mas dificilmente haverá transformações profundas. A reforma política e a tributária, por exemplo, estão longe de qualquer consenso. O pacto federativo mexe em muitos interesses. São pautas difíceis mesmo em tempos serenos. E o individualismo, característica marcante em nosso presidencialismo de coalizão, fica ainda mais forte na proximidade de períodos eleitorais. A maioria dos deputados prefere não apreciar projetos polêmicos, pois ficam temerosos de perder apoio em suas bases. Tal circunstância, somada à diminuição da musculatura política do governo, será o cenário pedregoso sobre o qual alguma semente tentará germinar.

Mas nem tudo depende do Legislativo. Muito ainda pode ser feito por meio da gestão, principalmente na área econômica. A queda de juros, se continuar numa constante, pode recolocar o país de uma vez por todas em um viés de crescimento. Isso já vem acontecendo, mas de maneira muito tímida. Com a inflação controlada e a recessão ainda cobrando seu preço dos mercados, não há motivo para inverter a tendência de descenso da taxa Selic. E, quiçá, lá no final de 2018, já possamos estar falando de crise num tempo verbal pretérito.

As concessões também podem e devem avançar mais. Veja-se, apenas para ficar num exemplo, o que pode representar a chegada da alemã Fraport ao aeroporto Salgado Filho, de Porto Alegre. Na última semana, os executivos da empresa revelaram os primeiros detalhes do plano de trabalho que colocarão em prática. Fica claro que o impulso do terminal na capital gaúcha tende a gerar benefícios em escala aos diferentes setores da economia. Não é apenas um negócio de transporte aéreo ou de operação aeroportuária, mas de avanço logístico de um estado inteiro. Infelizmente, há poucos dias, o governo federal cedeu a pressões políticas e retirou o aeroporto de Congonhas do rol de concessões. Pois bem: essas atitudes, proativas ou retroativas, é que dirão do sucesso ou do insucesso da presidência da República no intuito de modernizar o país.

Portanto, a economia pode e deve continuar recuperando a confiança e reconstruindo a estabilidade. Tudo leva a crer que esse descolamento da política continue ocorrendo, o que é bom para o país. As investigações da Lava-Jato devem ter prosseguimento, dentro dos parâmetros da lei e sem qualquer obstáculo. A depuração ainda não terminou. E, apesar dos pesares, se o governo fizer esforço, sempre haverá forma de a Câmara e o Senado votarem algumas matérias. Se muito não se pode esperar até o final do próximo ano, o pouco já será bastante. Errar o mínimo possível, apoiar os setores produtivos, aumentar a oferta de emprego e permitir o funcionamento das instituições. Se tudo fluir nessa toada, o Brasil estará muito melhor.