Nenhuma economia se sustenta sem confiança. E não há confiança que resista sem responsabilidade fiscal. Mexer nessa dinâmica, mudando do círculo vicioso para o virtuoso, é o primeiro passo para qualquer estratégia de recuperação de um país. Não se faz gestão da economia com desordem, empirismo e populismo.

O acerto do atual governo, nesse ponto, começou desde a escolha dos nomes que compõem sua equipe econômica. Mesmo que se discorde de muitos pontos das teses defendidas, é inegável que Temer montou uma equipe de notáveis da área – todos são tecnicamente densos e ilibados do ponto de vista ético. Figuras reconhecidas pelo mercado financeiro. Foi um bom começo.

As primeiras decisões que confirmaram o que as biografias preanunciavam. Praticamente todas as medidas apontaram em favor da reconstrução do equilíbrio e da credibilidade fiscal do país. As sinalizações para o ambiente interno e externo demonstraram necessidade de diminuir os gastos públicos, equilibrar as contas e adotar um caminho reto e transparente, sem dar margem a estratagemas.

Contudo, como sempre ocorre quando a lógica financista se impõe a qualquer outra, a mão pesou demais em algumas iniciativas. “O remédio não pode matar o paciente”, diz o dito popular, que também se aplica nesse caso. Exemplos disso são: a mudança do chamado “conteúdo local”, da TJLP e o aumento da carga tributária embutida no fim da desoneração da folha de pagamento de vários segmentos. Medidas que penalizam o setor produtivo nacional.

A tal “reoneração” não gerará muitos dividendos para o governo, mas será penosa para setores produtivos já tão assolados pela crise. Sem dúvida, mesmo que de forma indireta, gerará mais desemprego. E, convenhamos, não é razoável que, diante de um quadro de 13 milhões de desempregados, o governo dificulte e eleve ainda mais os custos de novas contratações.

Pior que isso teria sido se houvesse aumento sobre o PIS, a COFINS e a CIDE, pois geraria um efeito cascata com impacto direto no orçamento doméstico das famílias brasileiras. Todavia, ainda não estamos livres. Conforme ficou claro na manifestação dos representantes do Ministério da Fazenda, tais mudanças não estão definitivamente descartadas.

O mais correto é que o governo ataque o déficit com uma redução maior na Selic. Já poderia ter feito isso em reuniões anteriores do Copom, considerando que a inflação se mostra sob controle. Basta ver que a queda de um ponto percentual na taxa básica de juros representa uma economia de R$ 15 bilhões por ano no custo da rolagem da dívida.

Claro que o governo está num fio de navalha. Por isso, a dualidade entre erros e acertos é até mesmo esperada. O equilíbrio está em dar oxigênio para os setores produtivos e, por consequência, estimular o crescimento e, de outro lado, manter a inflação sob controle, diminuir o déficit público e reconstruir o equilíbrio nas contas.

Se qualquer dos lados da balança pesar demais, o país paga um alto preço. Mas a experiência mostra que, sim, é possível a convivência equilibrada das duas realidades. E o contrapeso está, conjunturalmente, no maior controle e na maior eficiência nos gastos públicos e, estruturalmente, na realização de reformas que tornem o Brasil mais parceiro de quem trabalha e produz. Chegou a hora, portanto, de acertar mais do que errar.