Os ciclos de descrença generalizada são os mais férteis para o surgimento dos “salvadores da pátria” na política: supostos monopolizadores da honestidade, sem nenhuma experiência concreta de gestão, mas plenos de convicções e discursos. O disfarce consegue aplacar boa parte dos eleitores com pelo menos dois atributos principais: projetam o sentimento das maiorias silenciosas e verbalizam ideias sem nenhum compromisso com as possibilidades concretas.

Considerando que as pessoas estão cansadas com a realidade posta, o discurso que significar uma mudança completa, mesmo que inexequível, acaba tendo deglutição agradável num primeiro momento. Soa melhor, flui. Em tempos de crise, o emocional fala mais alto do que o racional. As pessoas querem algo em que possam acreditar. E na política, especialmente durante as eleições, é comum que artifícios influenciem as massas sociais muito mais do que os argumentos da razão.

Não se trata, portanto, de um problema ideológico. Há populista e fanfarão em todas as matizes. Essa desorientação é causada pela desconexão do sistema político com o eleitor médio. Trata-se da tal crise de representação, de que muitos reclamaram em relação a partidos e governantes durante os protestos de rua iniciados em 2013. “Não me representa” – era uma das frases de ordem. Ora, se um modelo constitucional democraticamente estabelecido não consegue mais acolher a nação que o legitima, não resta dúvida de que precisa ser reformado. Faliu. Simples assim.

No Brasil, entretanto, mesmo com os inúmeros sinais vindos da população, a maioria das instituições e seus membros parece não ter descido do olimpo do poder ou do pedestal dos castelos. Os ouvidos continuam moucos. Quase nada mudou e, não raras vezes, as tentativas foram para que as regras do jogo se tornassem ainda mais perniciosas. Essa crise de pertencimento – que nas primeiras manifestações fez o povo vestir-se de verde-e-amarelo, pedindo mudança e demonstrando esperança – agora parece que emudeceu. Por quê?

Faço um recorte neste ponto, pois é preciso entender tal mudança: do grito para o silêncio, da revolta para a apatia. Ao contrário do que imaginam integrantes do PT, isso nada tem a ver com antipetismo. A propósito: a autorreferência para analisar os fatos é sinal de que, mesmo depois de tudo, o PT segue sem fazer qualquer autocrítica. A legenda, não é de hoje, deixou de ser paradigma para o comportamento da maior parte dos brasileiros. O que ocorre é que as pessoas, lá atrás, queriam tirar um governo e mudar o país – isso é fato. Mas agora, com a primeira tarefa alcançada, olham para o lado e não veem mais caminho para a mudança. É por isso que as panelas não batem contra Temer, mesmo ele tendo apenas 3% de aprovação. A população não sabe para onde ir, não vê motivação para lutar. A desesperança se impôs, e isso é muito perigoso.

Retomo a tese central deste ensaio. O populismo, à direita ou à esquerda, não chega ao poder sem deixar desastrosas heranças. A Venezuela, destruída por sua elite corrupta, também optou por um tal bolivarianismo redentor. Os Estados Unidos, por sua vez, estão pagando o preço de ter um presidente histriônico, que se imagina acima das instituições e da própria história. As relações comerciais norte-americanas estremecem, o mercado econômico se retrai e o mundo inteiro se arrepia com a possibilidade de guerras impulsionadas por atos inconsequentes. O demagogo, na vida social, pode ser até cômico e cativante; no poder, é um perigo real. Foi assim com Hugo Chávez, é assim com Donald Trump, será assim com qualquer outro.

Mas, repito, tanto lá quanto aqui, o problema não está tão-somente na alegada falta de consciência da população. Está, muito antes, na aberração do sistema, na omissão dos partidos e na ausência de líderes consistentes. Não me refiro a indivíduos que façam muitos votos, porque isso é apenas liderança numérica – e muitos os têm. Refiro-me àqueles com capacidade para estar à frente de seu tempo como essência, não como produto de pesquisas ou marketing. Àqueles que veem as gerações, não o próximo pleito eleitoral. E, assim, são capazes de conduzir verdadeiramente uma nação. Líder, estadista, é aquele que tem capacidade de unir, estabelecer consensos, juntar diferentes, criar um ambiente para o avanço. Infelizmente, foram tão poucos na história, e são tão menos na atualidade.

Para os olhos do povo, faltam quadros que incorporem esse figurino e façam surtir efeito dele. Eis o ambiente perfeito, então, para os radicaloides – mistura de radical com debiloide – de que fiz menção no título. O terreno está livre para aventureiros, sejam celebridades de redes sociais, defensores do regime militar, artistas do showbusiness ou mesmo quadros tradicionais travestidos em um novo traje salvacionista. Claro que há casos de grandes políticos que surgiram fora da organicidade partidária, e muitos deram certo na primeira experiência de gestão. Mas isso é exceção. O fato é que temos um esgotamento nas duas pontas: nem os partidos produzem novidades, nem as novidades surgidas voluntariamente inspiram segurança. Já escrevi, inclusive, que a crise de líderes está em quase todos os setores da vida social.

Senão uma aventura, talvez em 2018 tenhamos a eleição do “menos pior” para a presidência da República. O povo tende a, independente do nome, ir às urnas com o nariz trancado, no máximo para “engolir alguém”, dando um voto de confiança de curtíssima duração. Mas anda é tempo de surgir alguém ou algum movimento com consistência e responsabilidade, com verdadeiro compromisso público e com capacidade de uma mínima aglutinação. Seja da política tradicional ou de outros setores, o importante é que compreenda o momento do país, estabilize a economia, faça as reformas necessárias e construa a travessia. O Brasil tem tudo para ser muito mais desenvolvido; basta que o sistema não atrapalhe tanto.