Crises complexas, como a que estamos vivendo no Brasil, têm causas e efeitos diversos. Não surgem e não causam reflexos apenas na economia, na política ou no ordenamento jurídico. Têm motivações profundas de ordem cultural, comportamental e até mesmo histórica. Demoram anos para serem entendidas e explicadas, sempre com versões e interpretações contraditórias.

Digo isso para apontar um dos diversos sintomas da crise que, diante do tamanho do turbilhão, quase passa despercebido: a carência de líderes. Notem que não há, no cenário imediato e mediato do país, nem sequer indício de uma liderança que aponte para a congregação de diversos setores sociais ou correntes de pensamento. Também não há ideias realmente novas ou de vanguarda. Podemos apontar nomes mais fortes, aqui ou acolá, mas ainda nenhum quadro mostrou consistente para enfrentar o desafio atual. Ou, se há, a população não enxergou.

Nenhum setor – seja partidário, empresarial, sindicalista, acadêmico, jornalístico ou religioso – foi capaz de produzir líderes em escala nas últimas décadas. Pior: nem em escala, tampouco em pequena quantidade. O problema, portanto, não está só na política. Estamos carentes de referências em todas as áreas. Basta observar o comando das principais instituições brasileiras para perceber que a renovação foi muito tímida. Mas não falo em apenas trocar nomes por outros, mas de formar novos e verdadeiros líderes, pessoas com vocação para as tarefas públicas.

Na política, esse quadro é ainda mais grave. Nomes e dinastias se revezaram no poder ou em seu entorno, deixando pouco espaço para o surgimento de novos quadros. A criminalização da atividade política, misturando quem está envolvido em corrupção com quem não está, contribui para essa ausência de surgimento de novas lideranças. De outro lado, as fundações partidárias de estudos sucumbiram a um pragmatismo semelhante ao do próprio ambiente político. Muitas delas foram loteadas, viraram meros espaços de poder e perderam seu real sentido de existir: formar pessoas para a prática do bem comum. Deixaram passar ao largo uma juventude que, se bem direcionada, hoje poderiam ser a resposta concreta e madura para a construção de um novo país. Mas alguns jovens, corajosamente, estão conseguindo romper essa barreira – dentro e fora dos partidos – e precisam ser incentivados.

Não tenham dúvida de que, por trás do aparente imobilismo da população, que já não vai mais às ruas para reclamar do governo, embora também rejeite a gestão de Michel Temer, está a falta dessa perspectiva. Famílias inteiras foram aos protestos para tirar o PT do poder, mas agora sequer enxergam alternativas capazes de motivar um novo levante. Não há líderes, não há inspiração. Os nomes cogitados, na eventual hipótese de substituição do presidente por uma eleição indireta, não empolgam, não reúnem, não indicam transformação – isso se já não estão implicados em denúncias de corrupção.

Então, crises complexas e profundas exigem soluções igualmente complexas e profundas. Tenho falado, em todos os meus espaços, sobre as diversas reformas pelas quais o país precisa passar. Mas não se pense que estamos diante de um problema de caráter apenas legislativo ou formal. A mudança mais decisiva, aquela que transcende gerações, levará um pouco mais de tempo para acontecer – pois depende de muita insistência, num processo que precisa vir de baixo para cima.

Mesmo assim, não é hora de desistir. Não podemos entregar para nossos filhos e netos um quadro tão desolador. Até porque, conforme a lição bíblica, não raras vezes a tempestade antecede a bonança. Mas esse novo momento não surgirá por geração espontânea; depende de participação, cidadania, interesse, espírito crítico e colaboração. No pouco de muitos estará o reposicionamento do Brasil. Pessoas com potencial para isso não nos falta. A nação é repleta de talentos em potencial. Precisamos descobrir, valorizar e formar esses novos líderes para a vida social e política.